Há algum tempo não nos falamos e a saudade que guardo dentro do meu peito já se tornou insuportável. Desde que você foi tenho guardado estas palavras, à espera de uma oportunidade que se apresentasse digna. Enfim, a encontrei. Tenho muito que falar, confesso, mas tentarei ser breve, como sempre. Talvez o fato de nossos encontros se tornarem tão breves, tão somente nos intervalos, tenha feito com que nos tornemos tão distante. Venho formulando teorias sobre o nosso caso, muitas até, e espero poder apresentá-los qualquer instante. Outrora me vi apegada à leitura de cartas com teu nome no remetente, acho que tornou-se até cansativo ler, mas foi tão bom reviver tudo aquilo que tempos atrás compartilhamos. Tu sabes o quanto anseio tua volta, mas vou saber esperar.
Quero lhe contar também sobre o que fiz esse tempo todo de espera, exercitei-me bastante em diversas áreas. Pintei alguns quadros, fiz alguns desenhos e até compus alguma melodia. Freqüentei diversos cafés á procura do sabor ideal, e orgulhosamente digo que o encontrei. É um misto de café com canela e um pouco de leite, fiz questão de esquecer o nome pra não me apegar a detalhes. Você iria adorar o sabor! Quando voltar, me peça que o leve até lá. Ah, também comprei algumas revistas sobra a Itália e me matriculei em um curso de línguas, pra estar adaptada á língua quando formos de férias pra Milão. Creio que também comprei alguns presentes pra você, uma xícara nova e alguns casacos. Ontem refiz sua cama mais uma vez, e coloquei seus talheres à mesa por engano. Tenho me confundido todos os dias, acordo e penso que ainda estás aqui, isso me faz lembrar que tenho que recorrer a um médico para que me receite pílulas, mas as naturais.
Quando é que tu voltas? Quando poderei dar um fim à essa espera tão cansativa? Já se foram três anos, duas semanas e três dias, e parece que ainda ontem estavas aqui tocando nossa velha melodia antes de dormir. Tenho a impressão de que tu estás a me olhar, sinto até seu cheiro. Dias atrás jurei ter te visto novamente sentado na poltrona, mas quando me aproximei vi que não passava de uma alucinação. Meu irmão insiste dizer que estás morto, insiste dizer que o perdi pra sempre, ele adora brincar comigo. Quando conseguires se livrar dos imigrantes, volte logo, por favor. Preciso de ti mais do que nunca, pois insistem me levar embora daqui, sinto que querem me levar embora de casa. Se tu estivesse aqui, não os deixaria sequer me tocar, eu sei. Espero que a guerra acabe logo. E peça aos superiores que mandem suas cartas, pois há 2 anos não chegam mais. Espero que esteja bem, sinceramente. Quando puder, me ligue. E nunca se esqueça que incondicionalmente te amo.
Com amor,
Kate.
Já era outono, talvez seis meses depois.
Kate hoje vive num lugar bonito, com grama e rosas. Kate ainda espera. Kate, porém, perdeu a lucidez. Ela ainda chora cartas velhas e ainda se diverte comprando novos casacos, casacos que ficarão pra sempre à espera do amado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário