Às vezes dá vontade de falar de algo que eu vivi um tempo atrás. Uma realidade que doeu um tanto bom. Mas, de certa forma, eu gostava dessa dor. Essa mania de viver com um pé na tristeza, um tanto quanto masoquista ou sei lá. Quero contar-lhes de uma realidade que vivi anos atrás, precisamente uns dois anos ou até menos. Espero que já a conheçam por nome, pois não queiram conhecer de outra forma. Anorexia é o nome dela. Anorexia nervosa, melhor amiga da Bulimia e o que anos depois acarretou uma depressão, um distúrbio mental e outras coisas mais. Seus principais sintomas são bem conhecidos e tachados, na maioria das vezes, como fúteis, o que contribui para que ela se mantenha mais forte. Sentir-se anormal, um corpo além do normal. Gordo, inútil, desprezado, um ser sem sentido. É mais ou menos por aí que a fila anda. Dali alguns dias tu passa a ingerir a cota diária de cem ou duzentas calorias, ou até menos. Comes pra viver, na verdade até se esquece de viver, vive pra contar caloria, pra fazer exercícios. Até que um dia teu corpo pede o alimento, e tu se rende, é aí que o mundo desaba. Corre pro armário, come tudo que vês pela frente, sem sentir gosto nem cheiro, só come. E então vai até o banheiro se inclina e joga fora da forma mais desprezível tudo fora. O vômito, a covardia. Não suficientemente corre e toma oito ou dez laxantes, algo assim. E pra finalizar, prepara a lâmina, e num ato ainda mais covarde, mas de libertação total, se corta deixando todo o sangue cair. E essa cena se repete, mais e mais vezes, até que os ossos saltem e olhos se afundem. E então estás entregue à anorexia, mestra anorexia. Ela sabe como preencher os seus vazios como ninguém. Sabe te fazer feliz, numa falsa sensação de liberdade, de felicidade precária. Mas depois ela vai embora e leva tudo isso de volta. Vai e leva todos os restos que sobraram. Te deixa alguns muitos quilos, muita depressão, um sentimento de inferioridade e a maior e pior das enfermidades. E assim é a história da anorexia, te envolve, te usa e te corrói. Mas te ama, e tu a ama de volta. Mas tu se arrepende e ela não. Enfim, venho contar-lhes essa história como forma de advertência, relato, informe. Vim é desabafar minhas verdades, e quem sabe te deixar longe de uma realidade que corrói. E corrói de verdade. Se essa verdade te tocou, toque alguém que está se afundando. Anorexia não é o caminho da perfeição, é o caminho da ilusão.

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